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domingo, 27 de maio de 2012

Falso Morfeu

Eu sonhei com o demônio esta noite.
Nada aconteceu, eu só estava em uma sala igual às salas de espera de consultórios médicos, com uma mesinha de centro com várias revistas em cima e vasos de plantas nos cantos da sala. Eu estava sentado em um sofá que fica do lado oposto ao da porta, no lado da porta havia duas poltronas e numa delas estava sentado um homem bem apessoado vestido de branco exceto pela gravata e pelos sapatos pretos lustrosos.
Aparentemente não se podia afirmar se o homem era o demônio ou não. Ele transparecia muita classe, superioridade. Ele tinha um olhar bastante amigável, como se nunca houvesse tempo ruim para ele, mesmo estando numa sala de espera de um consultório médico. Uma sala de espera sem uma recepcionista, sem uma TV... Só a reconfortante situação entre escolher alguma revista sobre design de ambientes ou ficar encarando um estranho e arriscar uma conversa sobre o tempo.
O sonho inteiro se passou comigo sentado olhando para o homem de branco que tinha um olhar despreocupado com a vida.
Na noite seguinte eu tive o mesmo sonho. Ele correu igualmente como na noite anterior mas, a poucos minutos antes de acabar como na vez passada, o homem de branco parou de olhar em volta da sala e se concentrou em mim. No começo eu fingi não notar, balancei a perna como se demonstrasse pressa para ser atendido e sair logo dali, ele não desviava o olhar de mim. Tentei uma olhada rápida enquanto movia a cabeça fingindo um leve mal estar no pescoço, mesmo passando rapidamente a vista por ele, vi seus olhos azuis totalmente concentrados em mim, mas dessa vez o olhar despreocupado dera lugar a um olhar de curiosidade, interesse e diversão. Comecei a me sentir realmente desconfortável e pensei em pegar uma revista na mesinha à minha frente. Quando estendi a mão para a mesa, quando ia tocar uma revista, ouvi uma voz macia e agradável tomar a sala e quebrar o silêncio pela primeira vez.
- Olá, Carlos. Como tem passado? - Por um momento  senti meu corpo congelar e um arrepio correu desce a ponta dos meus dedos prestes a pegar uma revista até a minha nuca.
Eu olhei para o homem e agora ele estava sorrindo com a seu rosto amigável. Acordei logo em seguida.
Senti-me muito mal o dia todo. Minha cabeça doía e o meu estômago passou a manhã toda doendo. Depois do almoço passei o resto do dia com náusea. Pedi licença do trabalho, sentia como se a minha cabeça fosse rachar e decidi ir para casa. Maria pareceu me ignorar completamente, nem se mostrou interessada na minha saída mais cedo do trabalho.
Ao abrir a porta, a escuridão e a umidade do ligar me deram um calafrio. Mas, felizmente, a falta de iluminação aliviara a minha dor de cabeça e passava a me sentir um pouco melhor. Andei até o sofá, me estirei e liguei a TV, logo a luz saída do aparelho correu aos meus olhos e alcançou a minha cabeça como lanças trazendo pulsos de dor consigo. Desliguei a TV e deitei no sofá olhando para o teto, coloquei uma almofada no rosto e apaguei. Um apagão.
Acordei cerca de cinco horas depois, cheguei em casa por volta das quatro e meia, o relógio quase anunciava as dez da noite e eu não tinha comido nada desde o almoço. Meu estômago aliviara e comecei a sentir um pouco de fome. Fui à cozinha e encontrei o bolo do dia anterior que eu nem tocara esta manhã por causa da dor no estômago. Peguei um pedaço pequeno para testar como estava agora, a cabeça doía ainda, mas não sentia mais náusea, mordi o pedaço de bolo, mastiguei um pouco e o engoli. Pude o sentir traçando todo o caminho até o meu estômago e, ao alcançá-lo, senti também ele voltando. Corri desesperado para o banheiro e vomitei na privada. Fiquei apavorado ao ver sangue junto, aquilo não era normal, dei descarga rápido e fui tomar um banho, depois fui me deitar.
Novamente estava na sala do consultório com o homem de branco me encarando. Agora ele tinha mais alegria no seu sorriso. Peguei logo uma revista na mesa e fingi não ligar para o homem à minha frente. Folheava a revista sem ler nada, só conseguia pensar em como o homem sabia o meu nome.
- É um sonho, Carlos. Eu sou um fruto do seu subconsciente, por isso sei o seu nome. Disse o homem de branco parecendo se deliciar a cada reação minha.
- Isso faz sentido. Foi só o que pude responder.
- Sabe - ele continuou - você não está nada bem. Deveria ir a um médico, esta cada vez mais ficando pior.
Eu o olhava sem saber o que dizer e isso parecia o divertir muito, e ele continuou - Mas talvez você não deseje mais ficar aqui, Maria não liga mais para você, mesmo depois de você ter se declarado para ela. É duro ter o amor por alguém rejeitado, não?
Desta vez ele deixou transparecer alguma amargura. Mas não tem problema, pois também sentir meu peito se comprimir e a garganta fechar, uma semana atrás eu disse para Maria que a amava, depois disso ela parou de falar comigo como fazia antes, só me cumprimentava ou vinha tirar alguma dúvida sobre alguma apólice de um cliente dela.
 - Mas estou aqui para te ajudar, e vou te contar enquanto você ainda tem tempo. Ela só se aproximou de você por causa das suas dores de cabeça. - o homem voltou a sorrir em júbilo. O que as minhas dores de cabeça tinham a ver com tudo isso? Elas começaram a cerca de um mês, até fui ao médico mas o resultado ainda não tinha cheg...
O homem sorriu, era evidente que ele sabia tudo o que eu estava pensando. Acordei logo em seguida.
Ainda estava escuro, o despertador ao meu lado anunciava 4:53 AM. A minha cabeça ainda doía e ao mesmo tempo em que eu levantava e me arrumava a dor ia crescendo. Eu não sabia bem o que iria fazer, mas continuei me arrumando e saí de casa, precisava ir ao trabalho checar uma coisa.
Como cheguei cedo, e muitas pessoas viravam a noite trabalhando na corretora, os seguranças não estranharam nada. Fui até a mesa da Maria e por sorte a sua gaveta estava destrancada. Vi muitos papéis de apólices e documentos de seguros de clientes, mas o que eu procurava estava no fundo da gaveta. Era uma carta do hospital dos funcionários da corretora, até aí não havia nada demais, exceto que ela estava endereçada a mim.
Descobrir aquilo já clareou muitas das minhas dúvidas. Maria notara as minhas dores de cabeça frequentes e se mostrou preocupada. Nós já conversávamos bastante, tínhamos os mesmos gostos e ironicamente as minhas dores de cabeça nos aproximou, alguns colegas até me perguntaram se estávamos namorando. Saímos duas vezes, e a maneira como ela me olhava preocupada quando eu tomava mais e mais aspirinas, aquilo mexia comigo, crescia algo dentro de mim. Ela me convenceu a ir ao médico há duas semanas, e há uma semana ela não falava mais comigo.
Voltei a minha atenção para a carta. Continha o meu nome e abaixo em negrito estava escrito "Resultados do Exame" então seguia um monte de nomes que nunca vi na vida e vários percentuais e, mesmo não sendo perito, pude ver que as coisas não estavam como deveriam estar.
A minha cabeça começou a doer mais forte e lembrei que ela tinha algumas aspirinas na gaveta também, fui procurar os comprimidos e vi de relance um papel com o meu nome escrito. Era um documento da corretora, um seguro de vida em meu nome, e Maria era a beneficiária primária. Uma dor abissal tomou a minha cabeça e por pouco tempo pensei que iria desmaiar. Eu precisava sair dali, não tinha certeza do que estava acontecendo, mas precisava ir a um médico com urgência. Virei-me para a saída e vi Maria parada atrás de mim me olhando com os olhos arregalados e com a respiração pesada.
- Me deixe explicar, Carlos. Eu estava confusa, e não sabia o que pensar sobre nós dois. - cada palavra que ela pronunciava era um pulso de dor que começava na minha cabeça e descia em uma onda enegrecendo a minha visão como se eu estivesse piscando os olhos rapidamente.
- Quando você descobriu que eu iria morrer? - perguntei sem demonstrar qualquer emoção.
Ela levou uma mão à boca tentando sufocar um choro. Parecia perdida, arrependida. "Eu precisava de dinheiro, estou devendo um dinheiro considerável ao banco e podia acabar perdendo o emprego, no início eu só ia te pedir um empréstimo até eu conseguir arrumar tudo, mas aí chegou a carta... eu estava desesperada.". Isso me enfureceu, ela brincou comido apenas porque não sabia administrar o próprio dinheiro? Minha morte iria ajudá-la a continuar comprando as suas bolsas, sapatos e roupas de grife para desfilar por aí?
- Mas eu desisti de tudo quando você se declarou para mim, eu não podia continuar com isso. - ela tinha desespero no olhar. Eu estava começando a me acalmar e pensar mais devagar quando ela continuou - Por favor, não conte ao Alberto, ele vai me demitir.
No fim, a vadia só estava preocupada com o próprio rabo. Eu agora a encarava enfurecido, ensandecido, e percebi que alguém nos olhava do corredor. Por trás do vidro eu vi um homem já familiar, com as suas roupas brancas e a gravata preta, ele me olhava com olhos entusiasmados, se deleitando com a cena, torcendo pelo que vinha a seguir, era como se estivéssemos em sintonia. Ele acenou com a cabeça como se me indicasse alguma coisa. Olhei para a mesa ao meu lado, em cima de uns papéis tinha um abridor de cartas de ferro. Foi com ele que Maria abriu a minha carta e teve a ideia para resolver os seus problemas? Pude imaginar ela recebendo a carta por mim, meu horário estava muito bagunçado então seria muito fácil a carta do hospital chegar em um dia que eu não estava lá e Maria, como estava atuando ser para todos, inclusive para mim,  a minha namorada ou algo assim, recebeu a carta com uma cara preocupada e disse que iria me entregar o mais rápido possível.
A minha mão pegou o abridor de cartas inconscientemente, a dor rachava atrás dos meus olhos, Maria olhava para mim e para a peça de ferro na minha mão. O homem no corredor observava tudo com os seus olhos apreensivos, como alguém sentado na poltrona do cinema assistindo a um momento de vida ou morte no filme.
- Por favor, Carlos. Não conte ao Alberto? - Ela insistiu mais uma vez. Era evidente que nada importava mais do que ela mesma. Não pensei em mais nada depois disso.
Segurei firme o abridor de cartas e o cravei no seu pescoço, ela tentou gritar mas saiu apenas um gorgole abafado. Infelizmente tinha alguns empregados entrando na sala no momento, eles estavam conversando mas não puderam deixar de perceber o que eu fiz. Eles gritaram o meu nome e tentaram me segurar. Eu me esquivei e parti para a saída, a cabeça doendo mais e mais, não conseguia pensar em nada além da dor. Até que tudo ficou preto.
Abri os olhos de novo no mesmo sofá de sempre. A mesma mesa, as mesmas revistas e o mesmo homem de branco me olhando. Ele estava alegre como sempre.
- Olá, Carlos. Divertiu-se tanto quanto eu?
- Quem é você afinal? Eu te vi lá na corretora, eu sonhei aquilo tudo também?
- Não, não. Lhe asseguro que todos os fatos naquela manhã foram completamente reais - ele disse com firmeza.
- Como naquela manhã? Eu não acabei de desmaiar?
- Você desmaiou há dois dias, depois de ter tentado matar a pobre Maria desmaiou poucos segundos depois. Agora está numa cama de hospital.
-Tentar matar? Ela não morreu? - ao mesmo tempo em que estava aliviado, queria que ela não tivesse escapado, queria que ela pagasse pelo que fez.
- Ela foi socorrida a tempo e está a um andar acima de você. Mas não precisa se preocupar em ela ainda tentar te matar e conseguir uma bolada com o seu seguro. Você fez jorrar tanto sangue dela que o documento do seu seguro que ela forjou ficou empapado de sangue, assim como muitas outras folhas não só na mesa dela, até nas janelas tinha sangue. Foi lindo! - ele não se continha de excitação.
- Você é um demônio! Deixe-me em paz! - tentei, pela primeira vez em todos os sonhos, me levantar do sofá e sair dali, mas não consegui.
Ele fez uma careta e depois um olhar de tristeza.
- A partir de agora me chame de Lúcifer, sim?
- O que? Por que está dizendo isso?
- Eu vim te buscar, Carlos. Eu comecei a te observar depois de tomar conhecimento da sua lamentável situação. Você me divertiu bastante, mas, no fim, todo jogo acaba, não é mesmo?
O homem agora tinha um olhar vago, como se estivesse se lembrando das melhores partes do filme que acabara de assistir no cinema.
Então a porta do consultório se abriu. O homem de branco se levantou e disse:
- Estou indo na frente, tudo bem? Não se atrase. - e deu uma risada antes de sair pela porta.
Pude sentir que se quisesse ir embora agora eu conseguiria, mas fiquei no mesmo lugar. Minha vida desmoronou em um mês. Não me importava agora do que se tratavam as minhas dores de cabeça, não me importava com o que iria acontecer com Maria, mesmo tendo quase certeza de que ela ganharia o seguro de vida que todos os funcionários têm, e provavelmente encontraria um meio de processar a corretora e ganhar mais alguma coisa.
Me inclinei para frente, afundei o rosto entre as mãos e comecei a chorar.

Fim

Música para ouvir: Little Children - Everly